quarta-feira, 4 de março de 2009

Será que só usamos 10% do cérebro?
Dois médicos americanos, Rachel Vreeman e Aaron Carroll, publicaram no British Medical Journal uma série do que chamaram de “mitos médicos”, com o objectivo de “buscar a verdade científica”, aplicando-a à “sabedoria convencional”. A íntegra está em duas partes (1 e 2).

Eis um exemplo interessante:
Usamos apenas 10% do nosso cérebro
É um mito antigo, “propagado por múltiplas fontes que defendem o poder da auto-ajuda e do desenvolvimento de habilidades latentes”. Os estudos mostram que as pessoas usam muito mais do que 10% da capacidade cerebral, dizem os autores. “Nenhuma área do cérebro fica completamente silenciosa ou inactiva.”

Numa pesquisa chamada "Você Conhece Seu Cérebro?", foi perguntado a 2000 pessoas, entre outras coisas, se eles concordavam que "utilizamos normalmente apenas 10% do nosso cérebro." A metade concordou. Fez-se a mesma pergunta a 35 neurocientistas, e somente 2 concordaram. O veredicto? Essa história de usar 10% do cérebro é nada mais do que um mito. Não há qualquer razão científica para supor que usemos 10% do nosso cérebro. Todas as evidências sugerem o contrário: usamos nosso cérebro INTEIRO.

Quais 10%?

Para entender por que a história dos 10% é mentira, primeiro é necessário esclarecer de que 10% estamos a falar. Se são 10% da massa cerebral, 90% do que temos dentro da cabeça devem então ser dispensáveis. Se são 10% dos neurónios, os outros 90% devem ser silenciosos, ou então redundantes, servindo só como "reservas". Ou se são 10% da capacidade de desenvolvimento intelectual... será que alguém sabe o que seriam os 100%? Em qualquer dos três casos, toda a evidência científica está do outro lado. Lesões do cérebro, mesmo pequenas, têm consequências graves ao intelecto e ao comportamento. Também é possível "escutar" as células nervosas em actividade, e na sua grande maioria, e em quase todo o cérebro, é possível identificar algum aspecto do mundo ou do comportamento animal relacionado. Quanto às potencialidades, não é simples tentar estabelecer um limite de o quê o cérebro pode ou não conseguir fazer. Mesmo porque várias vezes um limite parece ter sido atingido, só para então ser ultrapassado graças a uma mudança de estratégia - exactamente como no caso de atletas de competição. Quando os neurofisiologistas do século 19 tentavam descobrir se cada região do cérebro tinha uma função definida, a prática comum era remover partes do cérebro de animais de laboratório e observar se havia perturbações do comportamento, do aprendizado, perda de capacidades sensoriais, ou motoras. Foi assim que por exemplo o alemão Hermann Munk ( 1839-1912 ) pôde determinar que a visão está localizada na região mais posterior do cérebro: cachorros que perdiam esta região ficavam incapazes de reconhecer objectos pela visão.

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